segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917

Na transição do feudalismo para o capitalismo a Rússia foi um dos países que reforçaram os laços de servidão, em vez de incorporar o trabalho livre e assalariado. A Rússia se manteve como um país agrário de base feudal até a metade do século XIX, quando começou a se industrializar. Politicamente o poder estava concentrado nas mãos do imperador (czar), sustentado pela aristocracia agrária.

A Rússia, nesse período, era o maior país da Europa, com cerca de 170 milhões de habitantes distribuídos por uma extensa área que abrangia desde a Europa oriental até o extremo leste da Ásia. Nesse vasto império conviviam inúmeras etnias, culturas e na­ções, a maioria delas de estrutura rural.

Com a rápida industrialização, as con­tradições de suas estruturas econômicas, políticas e sociais tornaram-se mais eviden­tes, obrigando, em 1861, à realização de al­gumas reformas, como a abolição da servidão e o início de uma reforma agrária. Entretanto, elas resolveram apenas os pro­blemas dos proprietários rurais (kulaks), dei­xando de lado os camponeses, o reduzido operariado, as diversas etnias, etc.

Essa reforma inicial foi efetivada pelo czar Alexandre II (1855-1881), assassinado em 1881. Sua morte levou ao poder Ale­xandre III, que realizou um governo duro e opressor. Sua polícia política (Okhrana) passou a controlar a vida do país, promo­vendo perseguições, banimentos, deporta­ções e mortes.

As forças políticas da Rússia, nesse mo­mento, começavam a se organizar em diver­sos movimentos como os eslavistas (identi­ficados com o czarismo, não aceitavam as ideias ocidentais), os ocidentalistas (apesar de politicamente conservadores, aceitavam as influências ocidentais), os populistas (tam­bém conhecidos como narodniques) e os mar­xistas (de diversas tendências).

O governo de Nicolau II (1894-1917) acelerou o processo de modernização da Rússia, baseado no capital estrangeiro; as indústrias e os centros urbanos cresceram e a rede ferroviária se estendeu pelo país. Nesse processo de modernização, a miséria dos camponeses e operários também proliferou pela Rússia. Apesar da industrialização, a burguesia russa ainda era muito fraca e por isso não conseguia se opor à aristocracia e ao autoritarismo do czarismo.

As insatisfações aumentavam e o gover­no respondia com mais repressão e perse­guição à oposição. Na verdade, as forças de oposição foram praticamente expulsas da Rússia.

Nesse período foi criado o Partido Social-Democrata Russo (1898), de orienta­ção marxista, que crescia com a adesão de intelectuais, operários e camponeses. A maioria de seus líderes estava no exílio e por isso o partido realizou uma convenção em 1903 na cidade de Londres com a pre­sença de Lênin, Plekanov e outros. Na con­venção surgiram algumas divergências que originaram duas tendências no partido: de um lado os defensores de um partido de militantes e centralizado, favorável à luta armada como forma de chegar ao poder na Rússia, conhecidos como bolcheviques (que significa "maioria"), liderados por Lênin; os mencheviques ("minoria"), lide­rados por Martov, queriam um partido aberto que assumiria o poder de forma pa­cífica e natural, através do convencimento e de eleições. As divergências entre essas duas correntes tornavam-se insustentáveis à medida que o processo político e social russo se agravava.

A situação política e econômica russa se agravou com a guerra contra o Japão (1904-1905). A derrota diante dos Japoneses evi­denciou as debilidades do czarismo e colaborou para unir operários, camponeses, burguesia, classe média e soldados na luta contra o autoritarismo e a crise.

A burguesia e a classe média se organi­zaram no Partido Constitucional Democrá­tico (ou Partido Kadete) e passaram a reivindicar reformas sociais, econômicas e, sobretudo, políticas.

O agravamento da crise fez explodir inúmeras revoltas populares por toda a Rússia, no final de 1905. Em grande parte elas foram organizadas por comitês formados por diversos segmentos da sociedade (soldados, camponeses e operários), deno­minados sovietes. Um dos fatos desse perío­do que se tornou famoso foi o levante dos marinheiros do Encouraçado Potemkin, que se apossaram do comando do navio no mar Negro.

Diante da pressão popular, o czar Nico­lau II foi obrigado a fazer algumas conces­sões, como a convocação de uma Assembleia Constituinte (conhecida como Duma) elei­ta pelo voto. Entretanto, ele tratou de neutralizá-la e continuou mantendo a re­pressão contra os movimentos populares até 1912.

A entrada da Rússia na guerra, em 1914, agra­vou o quadro político interno: milhões de soldados foram mobilizados e mortos, a in­dústria voltou-se para a produção bélica, a agricultura sofreu tremendamente. Como consequência, os alimentos e produtos industrializados subiram de preço, gerando inflação; o desemprego nas cidades crescia; o êxodo rural aumentava por causa da fome no campo.

As derrotas de 1915 enfraqueceram ain­da mais a Rússia. Em 1916 a situação do czar era insustentável e ele ficava cada vez mais isolado. Seu governo corrupto e opres­sor e as derrotas na guerra dificultavam qual­quer aliança política.

Os movimentos de oposição multiplica­vam-se pelo país. Na Duma, a burguesia e parte da aristocracia colocavam-se contra o czar; nas ruas o povo começava novamente a se manifestar. A Rússia estava a um passo de uma revolução que marcaria a história do mundo contemporâneo.

Em fevereiro de 1917 as greves e revol­tas multiplicaram-se, principalmente em Petrogrado. As revoltas deixaram de lado os aspectos reivindicatórios e passaram a exi­gir a derrubada do governo. No mês de março elas já tomavam conta das ruas de Petrogrado.

As tropas enviadas para reprimir as re­voltas se recusaram a atirar na multidão, ade­rindo às manifestações. Nesse processo, os partidos de esquerda que viviam na clandestinidade assumiram o comando de algu­mas manifestações. O soviete de Petrogrado é reorganizado e participam dele bolcheviques e mencheviques, entre várias correntes, ca­bendo a vice-presidência ao menchevique Kerenski.

Com as revoltas nas ruas e o exército amotinado, só restava ao czar Nicolau II renunciar, o que aconteceu em 27 de feve­reiro de 1917.

Com a renúncia do czar, a Duma ganhou uma representatividade maior e organizou o governo provisório, presidido pelo prín­cipe liberal Lvov. Kerenski foi convidado a participar do governo e logo se tornou o homem forte.

Os exilados, como Lênin e Trotski, re­tornaram à Rússia pregando o fortalecimen­to dos sovietes. Os bolcheviques, liderados por Lênin, queriam que os sovietes se tor­nassem o centro do poder político popular do país. Os mencheviques avaliavam que os movimentos populares não estavam prepa­rados para assumir o poder.

Assim, iniciou-se uma disputa pelo po­der entre a Duma (e seu governo provisó­rio) e os sovietes.

Em maio o príncipe Lvov cedeu às pres­sões e se demitiu; Kerenski assumiu a direção do governo provisório. As derrotas na guerra contra a Alemanha continuavam, di­ficultando ainda mais o quadro político interno.

Mencheviques, bolcheviques e o Parti­do Kadete percebiam a fraqueza do gover­no provisório e disputavam o poder. Bolcheviques (em julho) e kadetes (em se­tembro) tentaram chegar ao poder através de golpes, contidos pelo governo.

Gradativamente os bolcheviques ganhavam adesões entre soldados e camponeses, assumindo o comando de diversos sovietes, principalmente o de Petrogrado. Os bolcheviques organizavam-se para tomar o poder. Trotsky organizava a guarda vermelha e Lenin, de volta do segundo exílio defendia as Teses de Abril que proclamavam “Todo poder aos sovietes.”

Em 24 de outubro de 1917 os bolcheviques iniciaram a revolução em Petrogrado, tomando edifícios públicos e fábricas. O movimento se espalhou pelo país e o governo provisório foi deposto; Kerenski fugiu da Rússia em 25 de outubro.

Imediatamente foi convocado o II Congresso dos sovietes, com maioria bolchevique; Lênin assumiu a liderança do novo governo. Assim, a primeira revolução socialista da história era vitoriosa, mas começavam as dificuldades para impantá-la.

Ao tomar o poder, os bolcheviques iniciaram as reformas nas estruturas da Rússia. O novo governo, liderado por Lênin, nacionalizou os bancos e estradas de ferro, as fábricas passaram para o controle do governo e dos operários, as terras foram distribuídas aos camponeses. Trotski reorganizou o exército (Exército Vermelho) e a polícia po­lítica.

Uma grande questão era a continuação da Rússia na guerra. Lênin se opunha e Trotski era favorável. A paz de Brest-Litovsky, retirando a Rússia da guerra, foi assinada em março de 1918, mas os problemas ocasio­nados por ela permaneceram.

Em julho de 1918 foi aprovada a Cons­tituição que estabeleceu a forma do novo país: uma República Federativa Socialista. No entanto, ela não foi colocada em prática por causa das dificuldades internas. Somente em 1922, com uma nova Constituição, sur­giria a União das Repúblicas Socialistas So­viéticas (URSS).

A consolidação do novo regime não foi fácil. A oposição à revolução socialista se organizava para derrubar o governo socia­lista. Os contra-revolucionários, na maio­ria ex-czaristas, organizaram o Exército Branco, conseguindo ajuda externa, pois muitos países temiam o avanço do comu­nismo pelo resto do mundo.

Trotski fortaleceu o Exército Vermelho e combateu os contra-revolucionários, ge­rando uma autêntica guerra civil. Os con­frontos duraram até 1921, quando o Exército Vermelho chegou à vitória.

Durante a guerra civil Lênin foi obriga­do a realizar uma política radical (apropria­ção de bens e terras, regulamentação da produção, etc.), conhecida como comunis­mo de guerra, paralisando a economia do país para combater os contra-revolucionários.

Após a vitória de 1921 ele começou a pensar na planificação da economia do país, o que acabou redundando em uma Nova Política Econômica (NEP). Lênin ava­liava que para reerguer a economia era preciso permitir o ingresso de capital estrangeiro (mas com controle) e da ini­ciativa de pequenas e médias empresas privadas. A NEP deu resultados posi­tivos, fazendo crescer a indústria, a pro­dução agrícola e as atividades comerciais, mas acabou gerando algumas distor­ções, principalmente no campo.

A morte de Lênin, em 1924, desenca­deou na URSS uma forte disputa pelo po­der entre Stalin, secretário-geral do Partido Comunista, e Trotski, um dos líderes da Re­volução de Outubro e Comissário de Defe­sa da URSS.

A divergência entre os dois nasceu das propostas sobre o futuro da revolução. Trotski pregava a continuidade da revolu­ção socialista em outros países, pois do con­trário a URSS ficaria isolada e poderia ser combatida pelos países capitalistas; por isso ele defendia o caráter internacionalista da revolução ou a revolução permanente. Stalin, ao contrário, pretendia consolidar a revolu­ção socialista na URSS para depois estendê-la a outros países; era a política do socialismo em um só país.

Stalin saiu vitorioso na disputa e assu­miu o poder em 1928. Trotski foi persegui­do pelo novo governo e teve que se exilar no México, onde foi assassinado a mando de Stalin em 1940, por um agente conheci­do como Ramón Mercader.

Com Stalin no poder, a URSS desenvol­veu-se rapidamente e tornou-se uma potên­cia mundial, mas em contrapartida houve uma excessiva centralização do poder, o cul­to à personalidade e um governo autoritá­rio e sangrento.

Durante o governo de Stalin a econo­mia soviética desenvolveu-se bastante, principalmente em razão dos planos qüinqüenais. Em 1921 havia sido fundado o Gosplan, um órgão encarregado de elabo­rar planos econômicos de longa duração, em geral de cinco anos.

Entre a Primeira e a Segunda Guerra foram colocados em prática dois planos quinquenais.

• Primeiro plano quinquenal (1928-1932). Pretendia aumentar a produção agrícola e industrial, principalmente da indústria de base, e acabar com a propriedade privada, por meio da coletivização. No campo sur­giram os sovcoses, fazendas estatais onde o camponês era assalariado, e os kolcoses, coo­perativas onde o camponês tinha um pe­queno pedaço de terra para produzir.

• Segundo plano quinquenal (1933-1937). A partir do segundo plano a URSS já havia crescido muito, tornan­do-se uma das potências industriais do mundo. Novos investimentos, tecnolo­gia mais avançada e um planejamento mais homogêneo permitiram o cresci­mento da economia soviética, embora o padrão de vida do trabalhador soviético continuasse pior que os padrões do mun­do capitalista.

Quando o terceiro plano começava a vi­gorar, teve início a Segunda Guerra Mundial, e a URSS, que já era uma das maiores potên­cias políticas e econômicas do mundo, foi obrigada a voltar toda a sua economia para a produção bélica.

No campo político o stalinismo concen­trou todos os poderes no Partido Comunis­ta, comandado por Stalin. Ele criou um forte esquema de culto à sua personalidade, de técnicos e burocratas que viviam à custa do Estado, e passou a perseguir seus adversá­rios políticos. Em meados da década de 1930 os expurgos foram extremamente violentos, com a morte de milhares de seus oposito­res. Gradativamente, à medida que a eco­nomia crescia, uma pequena parcela da população concentrava riquezas e poder: a alta hierarquia do PCUS, os técnicos e a bu­rocracia estatal, que se tornaram uma elite no regime soviético.

Em síntese, Stalin acabou formando na URSS um governo elitizado com características totalitárias, que seriam desvenda­das somente na década de 1950. Esse processo acabou criando a primeira gran­de crise no marxismo ocidental. Boa par­te dos marxistas ficou espantada com o grande terror e opressão do stalinismo, incompatível, segundo eles, com os ideais socialistas.


PERÍODO ENTREGUERRAS: A CRISE MUNDIAL DO CAPITALISMO

O período chamado de entreguerras recebe essa denominação porque se estende do final da Primeira Guerra Mundial (1918) até o início da Segunda Guerra Mundial (1939).

A Primeira Guerra Mundial determinou o fim de um quadro his­tórico construído ao longo do século XIX, quando os países imperialistas europeus dispu­tavam a hegemonia mundial. A Primeira Guerra alterou profundamente esse contexto, pois os países europeus perderam espaços políticos, dando oportunidade para o surgi­mento de novas potências como os EUA e a URSS.

Todavia, as marcas deixadas pela guerra atingiram o mundo todo. A crise do sistema capitalista mantinha-se, apesar do crescimento da década de 1920, especialmente dos EUA. No rastro da guerra ocorreu a crise econômica de 1929, que teve início nos EUA mas afetou o mundo todo.

Após a grande depressão, o capitalismo assumiu outras características. Marginalizan­do alguns princípios liberais, o Estado assu­miu um papel mais importante no planejamento econôico, tanto nos países democráticos, como EUA e Inglaterra, quan­to nos totalitários, como Alemanha e Itália. Acompanhando a crise geral do capitalismo, a democracia liberal também se tornava ins­tável, especialmente a partir da década de 1930. Esse período apresentou o surgimento de ideologias e movimentos totalitários e seu fortalecimento na Europa. O nazismo alemão e o fascismo italiano, com objetivos expansionistas, surgiram como novos "fantasmas" que rondavam a Europa, apontando para mais um confronto político e militar.

De maneira geral, a Primeira Guerra Mundial não resolveu os problemas eco­nômicos e sociais da Europa. Pelo contrário, vitoriosos e derrotados tiveram enormes dificuldades em reconstruir seus países.

No entanto, os EUA conseguiram sair da guerra com um saldo positi­vo. O primeiro fato importante para isso foi que eles entraram na guerra somente em 1917 e não tiveram seu território diretamente atingido.

Nos anos que antecederam seu in­gresso no conflito, os EUA desenvol­veram-se rapidamente. Seus concorrentes diretos na produção industrial (Inglater­ra, França e Alemanha) eram os princi­pais protagonistas da guerra, deixando o mercado internacional aberto. Como os EUA estavam distantes dos confrontos, acabaram se tornando, com o tempo, os maiores fornecedores de armas (desenvol­vimento da indústria bélica), alimentos (progresso da agricultura), matérias-primas e capital (crescimento e expansão dos bancos) para os aliados europeus.

A dependência da Europa com relação aos EUA se tornou tão grande durante a guerra que após seu final quase todo o dinheiro da indenização alemã paga à In­glaterra e à França foi enviado aos norte-americanos para cobrir as dívidas. Por outro lado, o capital para a reconstrução dos países europeus veio basicamente dos EUA, re­forçando os laços de dependência.

Foi assim, portanto, que os EUA conse­guiram desenvolver suas indústrias, sua agri­cultura e ainda acumular capital suficiente para emprestá-lo novamente. A produtivida­de do país crescia em todos os setores. Tudo isso gerou grande euforia naquele país.

Todavia, todo esse crescimento acabou se tornando descontrolado. A produção au­mentava muito, motivada também peos avanços tecnológicos; o país vivia um qua­dro de superprodução e o poder de compra de seus habitantes não o acompanhava.

Agravando ainda mais a situação dos EUA, os países europeus recuperavam suas ativídades econôicas, diminuindo o nível de importações e concorrendo no mercado internacional. Assim, a produção norte-americana encontrava dificuldades de escoamen­to, permanecendo nas prateleiras e dando início a um processo de desestabilização da economia.

A CRISE DE 1929

O presidente Herbert Hoover, eleito em 1928, procurando proteger o mercado in­terno, elevou as taxas de importação, origi­nando uma reação igual na Europa. Isso dificultou ainda mais o comércio de expor­tação norte-americano.

Tentando evitar a queda dos preços, o setor agrícola armazenou a produção, au­mentando os preços internos dos alimen­tos. A indústria freou a produção, gerando, conseqüentemente, o desemprego.

Os investidores, pequenos, médios e grandes, estavam habituados a aplicar seu dinheiro em ações, produzindo forte espe­culação na Bolsa de Nova Iorque. Porém, com um quadro de crise se desenhando, o preço das ações começou a cair e todos pro­curaram vendê-las rapidamente, originan­do uma brusca queda.

O processo chegou a tal ponto que nin­guém mais comprava e as ações tornaram-se papéis sem valor algum. Assim, a Bolsa de Valores de Nova Iorque acabou quebran­do (o crack da Bolsa), e o fato repercutiu no mundo inteiro.

O crack da Bolsa provocou a falência de milhares de empresas norte-americanas — ban­cos e indústrias (cerca de 90 mil) —, arruinou agricultores, pequenos e grandes proprie­tários, e gerou um brutal desemprego (cerca de 15 milhões de desempregados). A depres­são econômica dos EUA atingiu rapidamente o mercado internacional, levando o capitalis­mo a uma crise sem precedentes, com sérias repercussões políticas no mundo inteiro.

O NEW DEAL

A grande depressão econômica perma­neceu até o final do governo do republicano H. Hoover (Partido Republicano). Esse qua­dro crítico favoreceu a eleição do democrata Franklin Delano Roosevelt (Partido Demo­crata) em 1932, que prometeu profundas re­formas para solucionar a crise.

Ao assumir o governo, o presidente Roosevelt implantou uma nova política eco­nômica, o New Deal (Novo Acordo), inspi­rada na teoria do economista inglês John Keynes (1883-1946), em que o Estado ga­nhou o papel de planejador, intervindo diretamente na economia. O maior país capitalista do mundo deixava, assim, as pos­turas liberais e aceitava a intervenção estatal.

Ao lado de técnicos, especialistas e econo­mistas, ele tratou de implementar um progra­ma de emergência (os célebres "Cem Dias"). A seguir, com a economia minimamente or­denada, adotou medidas mais drásticas.

O Estado assumiu o controle da produ­ção industrial e agrícola, fixando os preços dos produtos; criou instituições de crédito para conceder empréstimos a bancos, indústrias e proprietários agrícolas; iniciou um grande programa de obras públicas para absorver a mão-de-obra ociosa; regulamentou as relações de trabalho, diminuiu as horas de trabalho e legitimou os sindicatos; criou um vasto sistema de assistência, com a dinamização da previdência social e a criação do seguro-desemprego.

As reformas do New Deal duraram até 1935 e mostraram-se bastante eficientes, re­cuperando a economia norte-americana e beneficiando os trabalhadores. Entretanto, a situação de instabilidade persistia e uma das alternativas foi reaquecer a indústria de armamentos, uma vez que o quadro políti­co internacional apontava para um novo conflito.

A INGLATERRA

Após a Primeira Guerra a Inglaterra se encontrava em sérias dificuldades econômicas, gerando inúmeras greves (como a de 1918, que mobilizou cerca de 2 mi­lhões de trabalhadores). O país mais rico e mais forte do mundo entrava em deca­dência. Para solucionar a crise procurou-se aumentar a produção industrial e a participação da Inglaterra no comércio in­ternacional, com algum sucesso. No en­tanto, os problemas sociais permaneciam, reforçando os movimentos sindicais e o Partido Trabalhista, que chegaria a ocu­par algumas vezes o Gabinete do primeiro-ministro, tornando-se a novidade política do período.

Em 1918 foi eleito (pela primeira vez com a participação eleitoral das mulheres) o primeiro-ministro Lloyd George, por uma coligação de liberais e conservadores. Entre 1923 e 1935, conservadores e liberais reve­zaram-se no poder.

A partir de 1937 a situação política eu­ropéia tornou-se crítica em razão do forta­lecimento do nazismo e da expansão da Alemanha; a Inglaterra procurou reorgani­zar seus exércitos e se preparar para um novo conflito militar.

A FRANÇA

A situação da França foi bastante se­melhante à da Inglaterra no período entreguerras, apesar de alguns saldos po­sitivos em termos econômicos (indenizações de guerra da Alemanha) e territoriais. O país levou algum tempo para re­organizar sua economia, gerando proble­mas sociais. Os empréstimos externos para reestruturar o país começavam a pesar na economia.

A França viveu uma situação política ins­tável de 1919 a 1936, com setores conser­vadores e progressistas revezando-se no poder. Em 1936, sob ameaça de avanço das forças fascistas, os partidos comunista, so­cialista e republicano uniram-se numa Fren­te Popular (Front Populaire) e venceram as eleições, elegendo o socialista Léon Blum (1936-1937).

Apesar de algumas reformas sociais, a frente de esquerda não conseguiu manter-se unida; o Partido Comunista, por exemplo, saiu do governo e passou a li­derar greves. Novos governos progressis­tas se sucederam até 1938, quando os conservadores voltaram ao poder com Daladier, um governo fraco interna e ex­ternamente.

No quadro político europeu a França co­meçava a ter dificuldades com algumas pres­sões da Alemanha e dava início a uma corrida armamentista.

O JAPÃO

O notável desenvolvimento do Japão na virada do século foi paralisado no pós-guerra. Durante a década de 1920 o Japão pas­sou por uma profunda crise econômica, agravada em 1929. Tal situação gerou de­semprego, falências e inflação.

A situação política e social se agravou em razão da crise econômica. A estabilidade po­lítica, sustentada na prática por um bipartidarismo (Partido Conservador e Partido Liberal) e pelo apoio de grandes empresas, foi abalada pelas greves e pelo crescimento eleitoral dos socialistas. Os governos nessa década se sucederam, como na Europa, sem resolver os problemas mais sérios.

O exército surgiu no Japão como uma força política alternativa fora do Parlamen­to, constituindo até um poder paralelo. Ba­seado em sociedades secretas, ele se tornou direitista e nacionalista.

Em 1936, a desvalorização do iene me­lhora a situação econômica do país, que, no entanto, não reúne condições para concorrer no mercado internacional, porque os países ocidentais criavam todo tipo de dificuldade para o intercâmbio comercial com o Japão, gerando insatisfações no go­verno japonês.

Um golpe militar de extrema direita e nacionalista, reprimido pelo governo do im­perador Hirohito, evidenciou o confronto político entre militares e Parlamento. O im­perador procurou contornar a situação, ten­tando formar um governo de direita, com um militar como primeiro-ministro. Apoiados pela população, os militares dominaram o Ja­pão até 1941, empreendendo uma política expansionista no Oriente e agravando ainda mais o quadro político internacional.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

MERCANTILISMO E EXPANSÃO MARÍTIMA

1. O MERCANTILISMO

Entendemos o Mercantilismo como o conjunto de teo­rias e práticas de intervenção econômica surgidas na Eu­ropa a partir do século XV. Era um sistema complexo, que envolvia concepções precisas acerca da produção manufatureira, da utilização da terra e, sobretudo, do po­der do Estado.

As principais características do Mercantilismo

A doutrina mercantilista fundamenta-se no pressupos­to de que a intervenção do Estado deve garantir o equilí­brio indispensável da balança comercial. Para alcançar esse objetivo, existe a necessidade de organizar a economia de acordo com um conjunto de fatores, os quais acabaram por se definir como as características do Mercantilismo, que vamos conhecer a seguir.

• O Metalismo ou Bulionismo: o nível de riqueza de um país identifica-se com o montante de metal amoedável entesourado — quanto maior fosse a quantidade de me­tais, mais rico seria o país.

• A balança comercial favorável. Consiste na manu­tenção da balança comercial em superávit. Para que isso aconteça, o país deve exportar mais e importar menos.

• O protecionismo alfandegário. É a prática de man­ter altas taxas alfandegárias para desestimular as im­portações.

• Defesa da produção nacional. O desestímulo ao con­sumo de produtos estrangeiros a fim de incentivar a pro­dução nacional.

• O desenvolvimento nacional. Durante a Época Mo­derna a economia era pensada em âmbito nacional; o ob­jetivo a ser atingido era o desenvolvimento dentro das fron­teiras nacionais.

• Incentivo ao crescimento demográfico. Os Estados mercantilistas incentivaram a expansão demográfica a fim de formar um mercado de mão-de-obra grande o suficien­te para baixar o custo do trabalho.

• A intervenção do Estado na economia. Para colocar em prática as medidas anteriormente citadas, era necessá­ria a participação do Estado na economia.

A relação entre a economia e a política no Mercantilismo

A prosperidade oriunda do comércio permitiu ao rei, através do recolhimento de impostos, a manutenção das novas necessidades surgidas com a centralização do po­der. As moedas que entravam nos cofres públicos susten­tavam, entre outras coisas, os exércitos profissionais a ser­viço dos reis. Essa máquina de guerra era importante na defesa do Estado nacional, que era a extensão política do Mercantilismo econômico.

A relação entre a economia e o poder político do Mercantilismo se expressa na aliança entre o rei e a bur­guesia. Por esse acordo, o rei garantia o direito de reco­lher os impostos diretamente aos cofres públicos, que ele mesmo controlava. Parte desse capital foi utilizada para a criação e manutenção do exército profissional. A burgue­sia, por sua vez, recebia aquilo de que os comerciantes mais precisavam: proteção militar e política para levar adiante o seu projeto econômico.

Essa aliança realizou o sonho desses dois agentes so­ciais: o rei tornou-se muito mais poderoso — chegando ao Absolutismo —; a burguesia tornou-se muito mais rica: conquistou o mundo com o seu capital. Por outro lado, a nobreza foi incorporada aos quadros administrativos-burocráticos e militares do Estado, não ficando totalmente à margem dessa nova ordem social, política e econômica.

O trabalho no sistema mercantil

Na nova ordem econômica, o trabalho passou a ser muito valorizado. A exaltação ao trabalho se opunha à valorização da ociosidade, própria da elite da sociedade medieval, que via no trabalho uma atividade inferior, ex­clusiva das classes pobres. No mundo mercantil não deve haver tempo para a ociosidade, todo o tempo deve ser empregado no trabalho, que gera e multiplica riquezas. A nova ideologia pregava a substituição das horas de ora­ção pelas horas de trabalho. A vida material passava a ganhar importância em detrimento da vida espiritual, e a sociedade começava a se moldar de acordo com os pres­supostos capitalistas.

2. A EXPANSÃO MARÍTIMA

O mais notável resultado da economia mercantil foi, sem dúvida, a expansão marítima, que levou mercadores a percorrer todo o planeta. Preocupada em desenvolver o comércio, buscando novas áreas para explorar e novas mercadorias para negociar, a burguesia européia, devida­mente amparada pelo Estado, na figura de seu principal aliado, que era o rei, cruzou os oceanos em uma das maio­res aventuras humanas.

A expansão marítima foi um grande empreendimen­to econômico, político, social e militar e que envolveu grande volume de dinheiro. Sua realização somente foi possível graças à criação do Estado nacional e à aliança entre o rei e a burguesia. A centralização política pro­movida pelo Estado nacional permitiu que o rei concen­trasse toda a máquina estatal na criação de condições para o desenvolvimento tecnológico e para a preparação de técnicos e navegadores aptos a concretizar a tarefa. O custo do projeto foi financiado pela burguesia, diretamente em alguns casos, ou através dos impostos que os comerciantes pagavam ao Estado, derivados da atividade mercantil.

Mas não foram apenas os reis e os burgueses que tor­naram possível a expansão pelos mares: uma grande par­cela da sociedade foi convocada a contribuir com a empreitada. As viagens eram muito arriscadas, os naufrágios eram comuns, de tal forma que não havia certeza do retor­no dos navegantes. A população pobre, da qual saíam os marinheiros que trabalhavam nas funções menos qualifi­cadas, além de contribuir com os impostos derivados de seu trabalho, viveu o drama da perda das pessoas queridas sem participar dos benefícios econômicos e sociais oriun­dos das conquistas.

O comércio com o Oriente

As Cruzadas, que recolocaram o Ocidente em contato com o Oriente, criaram o gosto pelo consumo de exóticos produtos orientais. Os artigos mais consu­midos eram jóias, perfumes, veludos pintados, broca­dos, tecidos de seda e coral lavrado, além das especi­arias, como a canela, o cravo e a pi­menta. A expan­são do mercado europeu para esse tipo de mercadoria pôde ser rapidamente aproveitada pelos mercadores das cidades italianas, principalmente Gênova e Veneza, que nunca haviam deixado de comercializar com o Ori­ente.

Os mercadores de outros países queriam quebrar o mo­nopólio de Gênova e Veneza e participar desse comércio tão lucrativo. Esse foi o principal fator que impulsionou as viagens marítimas. Além disso, para poder manter o comércio com o Oriente, que exigia uma grande quanti­dade de moedas, havia grande interesse em encontrar me­tais amoedáveis.

O desenvolvimento técnico

Uma das mais importantes formas de apoio oferecida pelo Estado à expansão marítima foi o incentivo ao de­senvolvimento das técnicas navais. Uma técnica que ga­nhou um grande impulso no século XV foi a cartogra­fia. O cartógrafo, um misto de técnico e artista, traçava os mapas a partir dos relatos que os navegantes faziam a respeito do que ti­nham visto. Quanto mais viagens fossem feitas, mais aperfeiçoados ficavam os mapas. Também eram incenti­vados os estudos astronômicos para tornar mais fácil a orientação dos navegadores. Aperfeiçoou-se a constru­ção de embarcações e instrumentos já conhecidos, como a bússola e o astrolábio, que foram adaptados para as grandes viagens pelo mar.

A mudança do eixo econômico

Em 1498, após quase um século de preparação, uma frota portuguesa, sob o comando de Vasco da Gama, che­gou à índia. As viagens ao Oriente proporcionavam lu­cros que chegavam a 6 000%, o que fez o comércio se intensificar sensivelmente.

Esses acontecimentos provocaram uma mudança no eixo do comércio europeu. Antes de Bartolomeu Dias ultrapas­sar o Cabo da Boa Esperança, em 1487, a posição geográfi­ca de Veneza e das cidades do sul da Alemanha proporcio­nava a essas cidades grandes vantagens no domínio das ro­tas de comércio na Europa. A partir da descoberta do novo caminho para a índia, foram os países que têm costa volta­da para o Atlântico que ficaram em vantagem.

O Atlântico tornou-se a mais importante área de co­mércio do mundo. Portugal, Espanha, Holanda, In­glaterra e França tornaram-se nações privilegiadas porque têm acesso àquele oceano, que se transformou na rota mais lucrativa do começo do século XVI. O co­mércio, que antes apenas crescia, sofreu um grande salto. Tinha início o processo de formação de uma nova estrutura econômica, baseada no lucro, que é o Capita­lismo. Com o desenvolvimento do comércio, o principal fator de riqueza passou a ser a moeda.

3. O LONGO CAMINHO PARA AS ÍNDIAS

O avanço lusitano nas grandes navegações começou em 1415, com a tomada de Ceuta, importante reduto comer­cial na costa setentrional da África.

Em 1487, Bartolomeu Dias atingiu o extremo sul do continente africano (Cabo das Tormentas, depois baliza­do de Cabo da Boa Esperança) e, em 1498, o navegador português Vasco da Gama chegou a Calicute, na Índia. Estava completado o ciclo oriental das navegações. Todo esse processo está inserido no contexto de desenvolvimento do Mercantilismo, política econômica que dominou a Idade Moderna (séculos XV-XVIII), orientando o processo de colonização da América.

Após completar o ciclo oriental das navegações, Portugal estabeleceu um império comercial no Oriente, rompendo o bloqueio marítimo do Mediterrâneo imposto pelos turcos otomanos em 1453, quando estes tomaram a cidade de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia). Também rom­peu-se o monopólio dos italianos no comércio das especiarias do Oriente (pimenta-do-reino, noz-moscada, cravo, canela).

4. A REAÇÃO DA ESPANHA

A Espanha teve sua centralização política posteriormen­te à de Portugal. Em 1469, os reis católicos Fernando, de Aragão, e Isabel, de Castela, casaram-se, favorecendo a unificação política dos reinos espanhóis. O ano de 1492 marca, como já citamos anteriormente, a expulsão dos mouros de seu último reduto na Península Ibérica, Grana­da. É também o ano da expansão marítima espanhola atra­vés do ciclo ocidental das navegações.

A frota de Cristóvão Colombo, navegante genovês a serviço da Espanha, navegando em direção oeste com o objetivo de encontrar uma nova rota para as índias, acabou atingindo o continente americano a 12 de outubro de 1492. As terras encontradas tornaram-se alvo de disputa entre os reinos ibéricos.

A divisão das terras

Em 1493, sob pressão portuguesa, foi assinada a bula Intercaetera, dividindo o Atlântico entre lusos e castelhanos. Por esse documento, os portugueses teriam direito apenas às terras africanas. A Coroa portuguesa pas­sou a fazer pressão no sentido de mudar o acordo. Em 1494 foi assinado o Tratado de Tordesilhas, uma linha reta imaginária a 500 milhas do arquipelago de Cabo Verde dividindo entre Portugal e Espanha as terras do Novo Mundo e ga­rantindo a hegemonia lusitana no Atlântico.

Estabelecida a rota do Atlântico e garantido o domínio da costa ocidental africana, Portugal passou a dominar o comércio marítimo das especiarias.